junho 09, 2004

"Dádiva Divina", Rui Zink

Rui Zink, Dadiva Divina.jpg


 “Este é o meu melhor livro, porque trabalhei com Jesus. Ele não sabe desenhar, mas escreve muito bem.”


Tarde de 9 de Junho. Pintada sobre a calçada da Rua de Santa Maria, em Castelo Branco, e a roçar a pequena entrada da livraria Alma Azul, sobressai uma estranha faixa, de um azul-marinho luminoso e sem fim à vista. Mais tarde, soube-se que se tratava do trajecto do autocarro turístico que em breve irá circular em grande parte da cidade. A linha ali se interrompeu para deixar passar o novo livro de Rui Zink, cuja capa foi impressa no mesmo tom de cor, e suficientemente marcante para uma estreia na alma, azul por certo. Ninguém se lembraria de melhor golpe de marketing para promover “Dádiva Divina”, o último romance do autor, naquele «policentro cultural».


Vem o episódio a propósito das «pequenas brincadeiras domésticas» com que Rui Zink se delicia a entreter os seus leitores, como é o caso do jogo de palavras que esteve na origem do título da obra. «Este é o meu melhor livro, porque trabalhei com Jesus. Ele não sabe desenhar, mas escreve muito bem», garante o autor. Palavras de um anticlerical, que no entanto diz acreditar na mensagem de Deus, e que podem gerar alguma confusão nas mentes menos habituadas a ouvi-lo.


«Nada em nós é completamente natural e cultural», assegura Rui Zink, que encontra nos seus muitos anos dedicados à língua e à literatura a principal justificação para a capacidade que tem em se moldar aos discursos de circunstância e às circunstâncias da vida. «Transformei um defeito numa característica natural», confesa. E com naturalidade fala do simbolismo comum entre a vida e a literatura. «A primeira dádiva de todas é estar vivo. Estar vivo e ter saúde é um milagre, um privilégio e não um mérito. E a escrita, tal como a vida, também é acidental».


Na escrita de Rui Zink estão vincadas muitas das preocupações que ocupam o comum dos mortais. «Nos meus livros falo sobre como é viver num mundo em crise», refere o autor, antes de enveredar por outros caminhos mais conceptuais. «Ler é a suprema liberdade de viajar por mundos infinitos ou existentes». Por outro lado, para o autor de "Dávida Divina" a escrita representa uma espécie de cárcere, que no fundo não é mais do que o mundo interior de quem faz da escrita um ofício. «Um escritor é sempre um filho das pancadas do seu tempo. Ao contrário dos jogadores de futebol, o escritor não se retira. Os livros não envelhecem».


Mesmo que ninguém da assistência tenha colocado a questão, Rui Zink fez questão de responder à pergunta «idiota» que quase sempre se impõe nestas ocasiões. A existir apenas um livro da sua total preferência, e atirando para cima da mesa uma série de nomes, o autor deteve-se na “Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto. No seu entender, a obra é um «best-seller do século XVII», a que se poderia ter chamado “Aventura de Piratas”. «É um pioneiro na literatura europeia, figura pitoresca de um género literário que só iria surgir depois». E esclarece que, ao contrário do que acontece na poesia, «todos os bons romances buscam um tipo de luz e não param». É que «a peregrinação é material, mas o resultado é espiritual».


Catalogando a literatura como a «mais pobre e rica das linguagens» e a poesia como «a suprema arte da palavra», embora esta última seja uma «arte preguiçosa», Rui Zink não deixa de enaldecer o relevante contributo do país para o mundo das letras. «Ao longo de nove séculos, Portugal teve uma belíssima poesia, e desde há dois que tem uma bela prosa. A pujança da literatura portuguesa e em português é reconhecida no mundo». Contudo, no entender do autor, tal prestação ao nível do verso, fruto sobretudo de um trabalho individual e não testado em colectivo, acaba por debilitar a paisagem cultural que nos rodeia. «O problema é que a diferença entre um poema genial e um poema abaixo de cão é muito curta. Nesse sentido, mais vale uma pessoa dedicar-se ao romance. É mais difícil de fazer, mas mesmo não sendo bom, sempre vale alguma coisa».


Cruzando dados históricos e culturais, e fazendo uma breve analogia com a Suécia, orgulhosa dos seus músicos de grande qualidade e com grande capacidade técnica de execução, mas com poucos escritores à altura - precisamente o oposto do que acontece em Portugal -, Rui Zink facilmente conclui que «a literatura é a arte do pobre e a música a arte do rico». Uma estória anedótica que acaba por dizer muita coisa sobre o país real em que vivemos. E de novo o autor nos volta a trocar as voltas. «Aprendi que a verdade é a melhor forma de mentir».


 


[n] Jorge Costa


 




Para ler… em caso de emergência


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O inútil português, no meio do multifacetado clã europeu, não tinha outra função senão a de permanecer imóvel no interior de uma garrafa. À falta de melhor, esta só deveria ser quebrada em caso de emergência. 


 


Policial mítico, um livro de auto-ajuda e uma comédia romântica, o novo romance de Rui Zink relata com ironia a busca do sentido da vida em pleno século XXI, época de supremacia técnica e científica, rica no entanto em paradoxos éticos e religiosos. Depois da intriga agridoce de “O Suplente”, “Dádiva Divina” marca o regresso do autor ao território do humor, traçando o percurso de Samuel Espinosa, detective nova-iorquino e assíduo leitor da “Playboy”. É uma homenagem ao filósofo homónimo, neto de portugueses e que quase sempre residiu em Amesterdão, cidade para onde o avô de Rui Zink teve de emigrar devido à expulsão dos judeus em Portugal.


Como bom nova-iorquino, Samuel Espinosa não acredita em nada. O problema é que, sem o saber, está já à procura de Jesus Cristo. Um dia, recebe um folheto anunciando o Juízo Final. Por graça, pega numa caneta e começa a assinalar os pecados por si cometidos: pensamentos impuros, adultério, inveja, cobiça, fornicação, ira, invocação do nome de Deus em vão, …


Uma busca incessante leva-o então a percorrer vários países e continentes. Depois de passar por cidades como Adis Abeba, Roma, Joanesburgo e Lisboa, o detective acaba por encontrar o filho de Deus, uma figura sarcástica, diferente da iconografia medieval, e que depois de ressuscitar teve dois filhos de Maria Madalena e nunca mais abandonou a Terra.


À semelhança da personagem principal, depois da leitura deste livro Rui Zink espera que os leitores venham a acreditar nalguma coisa. Na dedicatória do exemplar que adquiri, o meu agora “colega” de escrita das páginas da revista Raia aconselha-me a ler a obra «quando estiver deprimido». Mas rapidamente o típico humor qe lhe circula nos genes o obriga a corrigir as três palavras que acabara de escrever. «Pensando bem, melhor é lê-lo antes».


O mais curioso acaba por vir no fundo da página, onde o escritor remata com um esboço de um tubarão, deambulando sozinho pelo oceano, ao que parece, perseguido por uma minúscula nuvem que não pára de lhe despejar água em cima. Uma mensagem irónica, recordando talvez a minha abordagem no final da apresentação na Alma Azul, em que, por lapso, deixei claro que a minha tímida pergunta se devia à falta de questões por parte da silenciosa audiência. No momento, aproveitando o deslize verbal, Rui Zink disparou com a parábola do inútil português, que no meio do multifacetado clã europeu, não tinha outra função senão a de permanecer imóvel no interior de uma garrafa. À falta de melhor, e tal como impunha o rótulo colado sobre o recipiente, os elementos dos países vizinhos só deveriam quebrar o vidro em caso de emergência.


Aquela quase imperceptível pincelada a caneta que eu trouxe debaixo do braço, qual “dádiva divina” de Rui Zink, diz-me isso mesmo: que o livro, no meio das outras centenas que vagueiam pelas estantes lá de casa, é mesmo só para ler… em caso de emergência.


[n] Jorge Costa



Ficha técnica do autor:


Nascido em Lisboa a 16 de Junho de 1961, Rui Zink é escritor e professor no Departamento de Estudos Portugueses da Faculdade da Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É conhecido junto do público, graças sobretudo à sua participação na “Noite da Má-Língua”, antigo programa da SIC, e acutualmente como provedor dos leitores do "Inimigo Público", o suplemento satírico e de humor do jornal Público A sua escrita tem abarcado na ficção, no ensaio e no teatro. Entre outros, publicou “Pornex” (1984), os romances “Hotel Lusitano” (1987), “Apocalipse Nau” (1996) e “O Suplente” (2000), bem como o primeiro “e-book” em língua portuguesa “Os Surfistas”, editado pela Dom Quixote (2001). É ainda co-autor de “Major Alverca” e dos livros infantis “O Bebé… que não gostava de televisão” (2003), “O Bebé... que não sabia quem era” (2003) e “O Bebé... que fez uma birra” (2004) também editados pelas Publicações Dom Quixote. A sua obra, igualmente publicada no Brasil, está traduzida em Inglês, alemão e hebraico.



 


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Posted by industriadarte at junho 9, 2004 10:21 PM
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